quarta-feira, 2 de junho de 2010

Pra um que fica

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltaem, se beijam, de dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.


Carlos Drummond de Andrade

.....................................................................................

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare



— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

.....................................................................................

A poesia se libertou, do casulo, da fôrma, do nosso insistente desejo calculista de metrificar e quantizar todas as coisas. Ela é uma forma viva de expressão, e como tudo aquilo que vive, tem a liberdade como um instinto intrínseco,
puro,
natural!
É... estamos mesmo mortos!
Mais mortos que tudo aquilo que inventamos todos os dias!
Não mudamos!
Não nos libertamos!
Não, nos libertamos não!
Daquele nosso insistente desejo calculista de metrificar e quantizar todos os nossos sentimentos!

Nenhum comentário:

Postar um comentário