quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Me atravessa!

Consideração do poema

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.

Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começa-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.

Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina,

o povo, meu poema, te atravessa.



C.D.A. (Foda!)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O meu ainda vibra de saudade!

Seu caminhar perdeu a elegância;
Sua cabeça penderá, cansada, sobre suas patas.
Somente seu olhar acompanhará os passos de seu dono.
Contudo, lembre-se que, dentro do peito,
ele ainda possui aquele coração que vibra com o som da sua voz!

E, chegando ao final, não se envergonhe,

Chore.

Você acaba de perder o mais dedicado dos amigos...!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

É você

Entre um pingo e outro
lágrimas tecem rios de saudade.
É entre um pingo e outro que a emoção desagua,
Entre um pingo e outro!
Entre um sorriso,
um carinho, uma simpatia,
talvez até uma boa conversa
entre 'a gente'...
Entre outro e um, é você!

domingo, 5 de setembro de 2010

Medo

Eu não tenho medo da morte,
medo do escuro,
medo da fome,
da solidão, não, tenho medo não!

Mas tenho um medo,
e é dele que eu tenho o maior dos temores,
é ele que me faz perder o sono,
é ele que me toma o pensamento.

É o medo da verdade
da realidade
do denotativo
do dissertativo!

sábado, 4 de setembro de 2010

Olhos

Passar uma tarde com você
num sol que arde.
Na pracinha olhos curiosos observam,
mas isso não me perturba.

São nos teus olhos que me perco,
São neles também que me encontro
e gozo de todos os prazeres,
visito os quatro cantos do paraíso.

São esses olhos de acalento,
que do implacável vento frio,
protegem a mim como um casulo.
São eles que me aquecem.

Se não mais olha
retorno a lucidez.
Desejo morrer na loucura
Pra que continue me olhando!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Nerudando

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito...”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.
Pablo Neruda


Ahhh como eu queria que esse fosse meu!